Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Calçada de Carriche

Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa, larga que larga,
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada,

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

António Gedeão

 

Adormecida, de Paula Rego, pastel sobre tela

Há dias em que todas nos sentimos um pouco “Luisas”

Há dias assim...

 

Não me esqueci de ninguém,

Apesar da ausência...

 

Beijos a todos e desculpem a ingratidão do pouco tempo que vos tenho dedicado

 

publicado por Beijaflor às 18:06
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Lembranças

Ainda me lembro das canecas de plástico por onde bebíamos o café com leite matinal, do cheiro das torradas misturado com o do café; do sabor do leite nas canecas mordiscadas de tanto uso.

 

Ainda me lembro das risotas e das vozes das nossas mães sempre muito atarefadas

 

Lembro-me de brincar na rua e das pobres rãs que apanhávamos nos açudes ali perto.

 

Lembro-me do cheiro da terra e das aventuras no campo.

 

Lembro-me de esperar horas a fio para descermos das árvores com receio das vacas que nos cercavam.

 

Lembro-me dos ralhetes e dos sustos que pregávamos às nossas mães! Oiço-os como se fosse hoje...

 

Tenho saudades de nós naquele tempo, quando apontávamos no calendário os dias, um por um, até àquele em que estaríamos juntos. E que brigávamos todos esses dias até à despedida, quando voltávamos a contar os dias.

 

Será que vocês ainda se lembram? Nas vossas vidas tão preenchidas, será que ainda existe um espaço para recordar?

 

A casa já não é a mesma, nem no mesmo sítio. Algumas das figuras que nos acalentavam já partiram. Agora as crianças são outras, as nossas!

 

Será que ainda há tempo para lembrar? Eu continuo aqui. Continuo a gostar de vocês, da terra e das memórias... a lembrar...

Bom Fim de semana e Bem Hajam

Beijos

publicado por Beijaflor às 23:44
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Domingo, 13 de Janeiro de 2008

A minha vida, és tu!

Queria explicar, mas não consigo. É difícil colocar em palavras apenas, todo o medo que sinto por cada vez que não estás bem. Seja, ou não, passageiro. Um dia que seja é suficiente para abalar toda a minha firmeza.

 

Já não estou em mim... quero ficar no teu lugar, trocar de dor... choro e grito em silêncio buscando culpas onde não existem. Porque será que as mães são sempre culpadas? Porque sentem mais a dor?

 

Olho para ti e peço a Deus que não seja nada. Peço que nos proteja, que te proteja, peço-lhe todos os dias. Que me ajude a ser boa mãe. Que te ajude a ser bom menino...

 

Deito-me a teu lado, suplico novamente, sinto a tua face (terá calor, terá frio), volto a sentir. Afago os teus cabelos.

 

A meu lado, repousas tranquilo e voltas a ser o meu bebé…

 

Beijo o teu rosto, sossego, e só então adormeço...

– Dorme bem meu filho, até amanhã! Que esta semana seja feliz!

 

 

Para quem sabe esperar, tudo vem a tempo.

(Clément Marot)

Beijos da Mãe

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publicado por Beijaflor às 23:41
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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

Quanto vale o tempo?

Excerto de texto da autoria de Frei Isidro Lamelas:

“Perguntem ao estudante que reprovou, quanto vale um ano! Perguntem à mãe que teve o bebé prematuro, quanto vale um mês! Perguntem aos namorados que não se viam há muito, o valor de uma hora! Para perceber o valor de um minuto, perguntem ao passageiro que perdeu o avião! Para perceber o valor de um segundo, perguntem a uma pessoa que conseguiu evitar um acidente!...

 

...Dizia a raposa ao Principezinho, “foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante”. Porque esta continua a ser uma verdade esquecida entre os humanos, é importante que haja quem saiba e ensine a “perder tempo” com o mais importante. E o mais importante continua a ser “criar laços” e “deixar-se cativar”.”

 

 

 

Desejo a todos os que já me cativaram e por conseguinte perderam tempo comigo, uma excelente semana, pois o tempo que gostamos de perder nunca é tempo perdido…

Beijos

publicado por Beijaflor às 23:29
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